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HERBICIDA GLIFOSATO DEIXA RESÍDUO EM LEITE MATERNO?

25 de fevereiro de 2019

CHECAGEM: INSUSTENTÁVEL

Pelas características da molécula de glifosato, não se espera encontrar resíduos no leite materno.

QUEM DISSE? Originalmente, a informação foi extraída de uma dissertação publicada por um aluno de mestrado em Saúde da Mulher da Universidade Federal do Piauí (UFPI) intitulada “Avaliação da contaminação do leite materno pelo agrotóxico glifosato em puérperas atendidas em maternidades públicas do Piauí”. A tese serviu como base para matérias como as publicadas pelo jornal O Dia do Piauí e pelo site Rede Brasil Atual.

O QUE DISSE? Pesquisa detecta agrotóxico glifosato em amostras de leite materno no Piauí

QUANDO FOI PUBLICADA? 13/07/2018 (Data de publicação da tese no Repositório Institucional da UFPI)

De acordo com as informações apresentadas na dissertação, a conclusão é que não há evidências de que o glifosato foi realmente detectado nas amostras de leite materno. Os resultados da tese não são cientificamente sustentáveis.

CONTEXTO

As analises que embasam a tese apresentaram falhas em pontos cruciais do processo e os índices relatados não têm respaldo biológico. Uma detalhada e criteriosa revisão bibliográfica* sobre o tema, constataria, como diversos órgãos regulatórios ao redor do mundo já constataram, que a molécula de glifosato não se acumula em órgãos e tecidos.

O próprio autor descreveu em seu trabalho dificuldades técnicas com a realização das analises, sendo preciso alterar parte de seu equipamento, o que impossibilitou a quantificação da molécula de glifosato no leite. Ainda assim, o autor afirmou ter encontrado o glifosato em algumas amostras. O experimento não se mostra cientificamente confiável em razão da troca de parte do equipamento utilizado. Na dissertação o próprio autor aponta todas as inúmeras limitações de seu estudo.

O PORQUÊ DAS CONCLUSÕES DO AUTOR SEREM INSUSTENTÁVEIS

O mestrando não conseguiu quantificar os níveis de glifosato que afirma ter encontrado porque mudou o equipamento em meio ao estudo. Os ensaios foram realizados em um dos equipamentos que teve suas partes trocadas em meio à análise, isso significa que a ferramenta utilizada para analisar a amostra (neste caso uma coluna cromatográfica) não foi devidamente testada e avaliada, como ele relata no trecho da tese a seguir:

“…como o tampão preparado necessitava de ajustes de hidróxido de potássio 6 M e esse ajuste não foi uniforme, ocorreram alterações significativas dos tempos de retenção das substâncias de interesse (glifosato-FMOC e AMPA-FMOC), tornando os métodos empregados não reprodutíveis durante a análise das amostras, mesmo na nova coluna, o que inviabilizou a quantificação destas substâncias

Em análises laboratoriais, para se ter certeza de que uma coluna cromatográfica está em boas condições para a análise, esta deve ser tratada e testada antes e após a instalação no equipamento, assim como, antes do início das análises. Mais importante ainda é realizar a validação da metodologia proposta, através da obtenção dos seguintes parâmetros: seletividade, linearidade, efeito matriz, limite de detecção e quantificação, precisão, exatidão, estabilidade, robustez, entre outros, sem os quais a metodologia se torna imprópria para confirmar e fornecer evidências objetivas de que os requisitos específicos para seu pretendido uso foram atendidos. Somente após esta validação é que as amostras a serem investigadas podem ser analisadas e os resultados interpretados. Ressalta-se o fato de ser uma metodologia de várias etapas (extração, derivatização, etc.) que exigem ainda mais o conhecimento das limitações e pontos positivos da análise. O autor não demonstra ter todas as validações necessárias. .

A natureza dos resíduos encontrados nesta análise não foi definitivamente estabelecida. O autor não fornece nenhum dado sobre as amostras utilizado para confirmar se o resíduo era de fato glifosato. Isso é especialmente importante pelas dificuldades mencionadas pelo próprio autor.   Se realmente houve detecção de resíduo de glifosato nas amostras, os níveis deveriam de estar presentes em “Partes Por Milhão”, ou pelo menos mencionar o limite de detecção do método. Além disso, é importante ressaltar que as propriedades físico-químicas do glifosato indicam que ele é altamente hidrofílico (ionizado) em pH fisiológico, sendo improvável a sua distribuição preferencial no leite materno.

* Estudos com bases científicas sólidas que confirmam que glifosato nunca foi detectado em leite materno:

McGuire et al., 2016 – https://academic.oup.com/ajcn/article/103/5/1285/4633910

Bus, JS, 2015 – https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0273230015301069

Analysis of Glyphosate and Aminomethylphosphonic Acid in Nutritional Ingredients and Milk by Derivatization with Fluorenylmethyloxycarbonyl Chloride and Liquid Chromatography–Mass Spectrometry

Stefan Ehling and Todime M. Reddy

Journal of Agricultural and Food Chemistry 2015 63 (48), 10562-10568

DOI: 10.1021/acs.jafc.5b04453

 

Determination of Glyphosate Levels in Breast Milk Samples from Germany by LC-MS/MS and GC-MS/MS

Angelika Steinborn, Lutz Alder, Britta Michalski, Paul Zomer, Paul Bendig, Sandra Aleson Martinez, Hans G. J. Mol, Thomas J. Class, and Nathalie Costa Pinheiro

Journal of Agricultural and Food Chemistry 2016 64 (6), 1414-1421

DOI: 10.1021/acs.jafc.5b05852

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