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Segurança do glifosato: o que faz a molécula ser a mais utilizada na agricultura brasileira

28 de fevereiro de 2019

Com uso aprovado em mais de 100 países, a tecnologia é essencial para a agricultura nacional e segura em seu uso responsável, apontam pesquisador da Embrapa Soja e Instituto Brasileiro de Toxicologia

Disponível no mercado para o produtor rural desde 1974, a molécula de glifosato foi descoberta quatro anos antes durante pesquisas da indústria farmacêutica. No Brasil, o herbicida está em sua quarta década uso, depois de receber a aprovação e ser registrado pelo Ministério da Agricultura, em 1978.

Segundo o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Soja) e autor do livro A Era Glyphosate, Dionísio Gazziero, o glifosato é um produto de grande importância para a agricultura em culturas transgênicas. “Existem diversas alternativas disponíveis no mercado para o manejo de plantas daninhas, mas as características particulares do glifosato justificam a sua popularidade no mundo inteiro”. O doutor em agronomia destaca que o amplo espectro de ação da molécula – que controla aproximadamente 150 espécies de plantas daninhas no Brasil -, e a boa relação custo-benefício para o produtor são qualidades de destaque.

Gazziero, da Embrapa Soja: “Não havendo um produto com a eficiência do glifosato para controlar as plantas daninhas, nós com certeza voltaríamos a utilizar o arado e a grade.” Foto: Lebna Landgraf /Embrapa

Gazziero, da Embrapa Soja: “Não havendo um produto com a eficiência do glifosato para controlar as plantas daninhas, nós com certeza voltaríamos a utilizar o arado e a grade.”Foto: Lebna Landgraf /Embrapa

Por esse motivo, diferentes formulações de herbicidas a base da molécula são lançadas, nas principais regiões agrícolas do mundo. Com uso aprovado em mais de 100 países (confira a lista aqui), entre os quais estão o Brasil, Estados Unidos, Japão e a Europa, atualmente, mais de 50 empresas comercializam formulações à base de glifosato no Brasil.

O pesquisador explica que a popularidade da ferramenta química decorre da longa história de uso simples e econômico, combinado com sua baixa toxicidade, para controlar o crescimento de plantas daninhas que competem por água e nutrientes com as lavouras. “Sem o manejo adequado dessas plantas daninhas, a perda de produtividade no campo pode facilmente chegar a 30%, atingindo até 70% em casos extremos”, explica Gazziero.

Em uma perspectiva nacional, uma ausência hipotética ou uma restrição de uso do glifosato impactaria severamente a competitividade do agronegócio brasileiro e a sustentabilidade do campo. No primeiro caso, Gazziero aponta que a indisponibilidade de alimentos ou matérias primas agrícolas no mercado devido à redução da capacidade produtiva do campo se tornaria uma realidade. Todavia, não é a questão econômica que mais preocupa o pesquisador. O meio ambiente seria o mais impactado diante de uma hipotética restrição do uso da molécula.

Atualmente, o manejo com glifosato contribui para o uso de sistemas agrícolas mais conservacionistas como o plantio direto na palha, que reduz significativamente o revolvimento do solo e permite que o agricultor semeie sob a plantação residual, protegendo o solo da perda de nutrientes e compactação, e garantindo um ambiente equilibrado.

“Não havendo um produto com a eficiência do glifosato para controlar as plantas daninhas, nós com certeza voltaríamos a utilizar o arado e a grade, o que significa ter erosão do solo, perda parcial dos adubos ali colocados e de toda vida rica nele presente”, alerta o pesquisador.

Uso responsável e seguro

Além das boas práticas agrícolas, a atenção aos equipamentos de proteção individual utilizados pelo profissional responsável pela aplicação do herbicida é de grande importância. O pesquisador da Embrapa destaca que a atenção às indicações de uso, leis e normas regulamentadoras para aplicação de herbicidas no campo é essencial para reduzir situações de risco.

“A primeira garantia do uso seguro vem dos órgãos especializados que regulamentam e fiscalizam o uso da ferramenta química, e a segunda da implementação das boas práticas de sustentabilidade e segurança”, ressalta Gazziero.

Após diluído em água e pulverizado sobre as plantas daninhas, a solução aplicada é rapidamente absorvida, ao entrar em contato com as superfícies verdes da praga. Dentro da planta daninha, a molécula se move até a raiz, onde ela interfere diretamente no bloqueio de uma enzima específica, chamada EP-SPS que, consequentemente, interrompe uma cadeia de reações vitais para a sobrevivência da planta.

É importante ressaltar que a molécula só tem efeito em superfícies verdes. Ou seja, ao entrar em contato com o solo, a se decompõe a partir de processos naturais até desaparecer da natureza.

Por fim, Dionísio Gazziero pontua que quando utilizado conforme as instruções recomendadas pelos fabricantes e as orientações de organizações regulamentadoras, a molécula do glifosato não apresenta riscos aos seres humanos e animais.

Segurança do glifosato

Para o médico toxicologista, doutor em saúde pública e presidente do Instituto Brasileiro de Toxicologia (IBTox), Flávio Zambrone, a população está exposta diariamente a diversos compostos químicos, a maioria deles necessária para a manutenção da vida diária, incluindo saúde, alimentação e conforto ambiental. “Um mesmo composto químico pode trazer tantos benefícios como malefícios, dependendo de uma infinidade de fatores, como, por exemplo, a concentração utilizada e a forma de exposição”, explica.

A partir da colocação de Zambrone, nota-se como fundamental o respeito do produtor e trabalhador rural em relação as instruções de uso contidas nas bulas e rótulos de formulações à base de glifosato. Tais informações estão presentes em todas as embalagens das substâncias aprovadas para comercialização e que passaram por uma avaliação do risco conduzida pelas autoridades regulatórias do país.

Zambrone, do IBTox: “O glifosato é considerado como uma substância que apresenta baixo risco para a saúde humana, nas condições de exposição avaliadas e esperadas”. Foto: Arquivo IBTox

 

O cuidado com a segurança do trabalhador que irá aplicar o praguicida deve ser priorizado, independente do perfil toxicológico do produto que ele usará. No caso da molécula do glifosato, a atenção para questões práticas como dosagem recomendada e uso das vestimentas e dos equipamentos de proteção necessários para a segurança individual, são indispensáveis para que a manipulação do produto ocorra da maneira correta, de modo a evitar acidentes.

Zambrone ainda acrescenta que o uso seguro somente pode ser garantido se as recomendações indicadas forem seguidas. “O glifosato é considerado como uma substância que apresenta baixo risco para a saúde humana, nas condições de exposição avaliadas e esperadas”, acrescenta.

No que se refere a avaliação do produto, assim como todos os químicos usados na agricultura, o glifosato é regulado não só em nível nacional como em todos os países nos quais a molécula é comercializada. No Brasil, o defensivo passa pelo crivo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Fora do Brasil, outros órgãos regulatórios aprovaram o uso e a segurança da molécula, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Agências regulamentadoras como a Enviromental and Protection Agency (EPA) [Estados Unidos], European Food Safety Authority (EFSA) [Europa], Australian Pesticides and Veterinary Medicines Authority (APVMA) e o Instituto Federal Alemão de Avaliação de Risco, aprovaram o uso de herbicidas à base de glifosato e permitem o uso dentro dos seus territórios.

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